Sem dor. Meu peito está sereno, tranqüilo e desafogado. A
página estacionada na minha frente grita um socorro mudo e implora para que a
tinta da minha caneta rasgue seu branco vorazmente. A página estacionada na
minha frente quer se transformar.
Tenho escrito pouco, porque tudo o que escrevo, agora, é sobre o amor. Mas
existe em mim uma estranha dificuldade de falar sobre o amor quando me sinto em
paz, quando no meu peito toca a balada mais doce e suave de amor. Quando não
fere, as palavras sobre ele têm personalidade de garota careta, de filme da
Disney.
Sem dor, sou apenas um enfermo necessitando de muletas para me locomover. Nada
me provoca, me incita. A felicidade dessa minha página em branco estacionada de
frente para mim, como de criticasse meu jeito, é a depressão, a dor, o
não-sei-mais-o-que-fazer-da-minha-vida, o desespero sem fim. A felicidade dessa
página é quando o amor me dói e me devolve, de sorriso na cara, a voracidade e
selvageria de uma página inteira rasgada de tinta.
Sem dor, meu peito é o texto a lápis, com a segurança da borracha. Sem motivos
para a melancolia, a página mais me encara e provoca do que eu o faço. A dor da
minha página em branco, que estacionou de frente para o meu peito sorridente, é
saber que meu coração está em paz.
Tenho escrito pouco porque tenho sentido muito.
No ultimo grito de socorro dessa página ouvi: “Desapareça,
moço. Faz esse peito chorar.”