Os olhos eram claros como a cor das manhãs em que eu o via.
Os ombros largos mostravam os fardos já carregados e revelavam os que ainda
viriam. As mãos eram grosseiramente másculas e entre os dedos jazia um cigarro.
Cada gesto parecia ser milimetricamente calculado; lentamente levantava o braço
e guiava o cigarro até os lábios, uma tragada, duas, a fumaça escapa pelo canto
da boca e finalmente, ainda como se estivesse em câmera lenta, os lábios se
separam como dois amantes proibidos e uma fumaça densa se espalha pelo ar se
misturando com o ambiente caótico, a música no fundo, as pessoas apressadas, os
pensamentos e desejos que pairavam também ali, naquela imensidão minúscula. Os
olhos se fecham e a cabeça é inclinada levemente para trás como quem se deixa
voar nessa mistura.
O ciclo se repete. Um tragada, duas e a fumaça escapa pelo
canto da boca. Os olhos fechados ainda escondem a imensidão de uma alma
calejada. Distante de tudo o que ainda permanecia a sua volta e em seu
interior, os lábios se separam outra vez e a fumaça, agora livre, desenha o ar
e se mistura com as formas do seu rosto. Cada pequeno espaço desse corpo parece
preenchido. Tragando a vida na calmaria de um segundo intenso e expirando a
morte em fumaça espessa.
O cigarro morre entre os dedos ainda vivos. Os olhos se
abrem. Imensidão azul.
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