Uma garota confusa, tentando se entender e entender ao mundo, confundindo o mundo todo.



sábado, 24 de janeiro de 2015

Uma cena qualquer na minha memória



Os olhos eram claros como a cor das manhãs em que eu o via. Os ombros largos mostravam os fardos já carregados e revelavam os que ainda viriam. As mãos eram grosseiramente másculas e entre os dedos jazia um cigarro. Cada gesto parecia ser milimetricamente calculado; lentamente levantava o braço e guiava o cigarro até os lábios, uma tragada, duas, a fumaça escapa pelo canto da boca e finalmente, ainda como se estivesse em câmera lenta, os lábios se separam como dois amantes proibidos e uma fumaça densa se espalha pelo ar se misturando com o ambiente caótico, a música no fundo, as pessoas apressadas, os pensamentos e desejos que pairavam também ali, naquela imensidão minúscula. Os olhos se fecham e a cabeça é inclinada levemente para trás como quem se deixa voar nessa mistura.
O ciclo se repete. Um tragada, duas e a fumaça escapa pelo canto da boca. Os olhos fechados ainda escondem a imensidão de uma alma calejada. Distante de tudo o que ainda permanecia a sua volta e em seu interior, os lábios se separam outra vez e a fumaça, agora livre, desenha o ar e se mistura com as formas do seu rosto. Cada pequeno espaço desse corpo parece preenchido. Tragando a vida na calmaria de um segundo intenso e expirando a morte em fumaça espessa. 

O cigarro morre entre os dedos ainda vivos. Os olhos se abrem. Imensidão azul.

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